eu berrava o meu pequeno medo insuportável
de sentir pena de mim mesma
e de qualquer e toda lembrança que já foi fato
Eu, saudoso inexplicável gosto de vento
seria peito, eu-lirico que grita 'alma'
E se eu fosse a parede dos teus olhos
e mergulhasse no vermelho do teu sangue
Eu sentiria o eterno gosto que deixo
quando passeio por suas veias e sua aura
Não me importa a metade que desfaço
e não me importam todas essas portas trancadas
Eu sou o resto que sobrou da tua verdade
e sua primeira vez, pura e inocente
a primeira vez em que o mundo me viu apaixonada
Num corredor escuro e vazio
eu serei a porta e a nota aguda estraçalhada
mas se eu fosse o mel que te escorre pelos lábios
eu seria morte súbita, cena desfocada
porque eu sou o campo por onde corre a madrugada
- onde eu morro -
e aos restos me jogo nos teus olhos
(Ananda Pombo)
Copyright © Ananda Pombo 2011

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